Acusação e defesa já têm prontos os argumentos que irão levar
aos sete jurados para tentar, respectivamente, condenar ou
inocentar os réus Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá,
acusados de matar Isabella em 29 de março de 2008, no mais aguardado julgamento dos
últimos anos.
O
pai e a madrasta da menina assassinada negam o crime: alegam que
uma terceira pessoa o cometeu. Mesmo assim, eles estão presos
preventivamente desde abril de 2008 até serem julgados. Para o
Ministério Público, o casal discutiu, depois a madrasta esganou
Isabella e o pai a jogou pela janela do sexto andar do Edifício
London, na Zona Norte de São Paulo.
O
júri começa às 13h de segunda-feira no Fórum de Santana, na Zona
Norte de São Paulo, e deve durar até cinco dias, segundo estimativa
feita pelo juiz Maurício Fossen ao Tribunal de Justiça. Alexandre e
Jatobá, que, segundo a defesa, já entram moralmente condenados pela
sociedade, poderão deixar o plenário absolvidos (livres) ou
culpados (presos).
Pelo
menos sete pontos da investigação policial e do trabalho da perícia
foram cruciais para incriminar o casal, segundo o Ministério
Público. São eles: o ciúme de Jatobá, sangue no carro, sangue na
fralda, a marca da tela de proteção na camiseta de Alexandre, a
pegada dele no lençol, causa da morte por asfixia e politraumatismo
e o tempo para ocorrer o crime (veja quadro abaixo). Emoção, por
conta dos depoimentos dos envolvidos e testemunhas, e provas
técnicas deverão dar o tom do julgamento.
Os
sete temas acima serão debatidos à exaustão pelo promotor Francisco Cembranelli,
que culpa os Nardoni pela morte de Isabella, e pelo advogado Roberto Podval, que
defende os réus. Cembranelli vai contar com a presença da
advogada Cristina
Christo, que será a assistente da acusação. Ela vai levar ao
plenário o médico perito João Baptista Optiz Júnior para auxiliá-la
na interpretação das provas técnicas.
Os
três vão sustentar que Alexandre e Jatobá mataram Isabella. Para
isso, vão apresentar aos jurados um vídeo feito pelo IC de como o
crime pode ter ocorrido, além de uma maquete do prédio de onde
Isabella caiu. Podval terá a ajuda da advogada e perita Rose
Soglio, que irá orientá-lo sobre o trabalho da perícia do
IC.
Eles
pretendem apresentar aos jurados todo o material que foi recolhido
pela Polícia Técnico Científica de São Paulo do apartamento onde a
menina caiu há dois anos.
Dentre as peças estão a tela de proteção da janela do
sexto andar, que a defesa diz ter sido rompida, a faca e a tesoura
usadas para cortá-la, as roupas e sapatos de Alexandre Nardoni e
Anna Carolina Jatobá e a fralda que estancou o sangue da criança no
dia 29 de março de 2008.
Ciúmes de Jatobá A primeira prisão do casal Nardoni
ocorreu logo após o depoimento da mãe de Isabella, Ana Carolina
Oliveira, à Polícia Civil. Oliveira afirma que Anna Carolina Jatobá
sentia ciúmes de Alexandre com ela e com a filha
Isabella.
Segundo afirmou Oliveira, foi isso que motivou a morte da
menina. Sangue no carro e na fralda O sangue encontrado no carro
também foi determinante para incriminar o casal. Os peritos do
Instituto de Criminalística indicaram que Isabella foi agredida no
carro por Anna Carolina Jatobá.
A
madrasta é acusada de usar uma chave para causar um ferimento na
testa da menina e provocar sangramento. Apesar da divergência entre
os núcleos do IC sobre o sangue achado, a Promotoria entende que o
material é de Isabella. Podval contesta.
Ele
afirma que o Ceap (Centro de Exames, Análises e Pesquisas) do IC
não soube dizer de quem é o sangue. Para a acusação, uma fralda
também foi usada para esconder o ferimento em Isabella e estancar o
sangue na testa da menina no trajeto do carro ao apartamento do
casal. Segundo a defesa, houve falha no exame de sangue na fralda
para constatar que ele é de Isabella.
Marca da tela na camiseta de Alexandre e pegada no lençol
A camiseta de Alexandre ficou marcada pela tela de proteção da
janela porque ele se escorou para jogar a menina de lá, segundo a
perícia.
Pegadas correspondentes ao solado do chinelo que
Alexandre usava no dia do crime também foram achadas nos lençóis
das camas dos irmãos de Isabella, de acordo com o IC.
Podval alega que ele se debruçou sobre a rede após notar
que ela estava cortada e perceber que filha havia sumido da cama e
que subiu na cama pelo mesmo motivo.
Causa da morte e tempo do crime O atestado de óbito
aponta asfixia e politraumatismo como causas da morte de Isabella,
segundo o Instituto Médico Legal. Mas a defesa coloca em dúvida o
documento do IML porque o certificado de óbito indicava causa
indeterminada.
A
Promotoria informa que o crime contra Isabella ocorreu num período
de 12 minutos e 26 segundos. Esse foi o tempo que o motor do carro
dos Nardoni foi desligado e o pedido de socorro acabou feito por
telefone.
Os advogados do
casal, no entanto, sustentam que um ladrão invadiu o prédio
e matou Isabella, mas varredura feita pela Polícia Militar e
investigação da Polícia Civil e trabalho dos peritos não
encontraram nenhum vestígio de terceira pessoa dentro do
apartamento.
Para a perícia,
também não houve tempo hábil para um ladrão invadir o apartamento,
esganar Isabella, cortar a tela de proteção, jogar a menina e
fugir. O advogado Roberto Podval contesta a varredura da PM feita
no prédio. Isso porque ela foi comandada por um policial (tenente
Fernando Neves) que se suicidou meses depois ao ser investigado por
pedofilia.
Outra tese aventada
pela defesa, mas um pouco remota, é a possibilidade de a
menina ter sofrido um acidente doméstico e caído sozinha da janela
do sexto andar. O advogado chegou a afirmar que talvez nunca se
saiba quem realmente matou Isabella.
Oratória Além da investigação da Polícia Civil e das
provas técnicas produzidas pela Polícia Técnico-Científica, o
Ministério Público irá explorar os conflitos familiares envolvendo
os réus e seus parentes.
A
ideia será a de convencer o júri que Isabella encontrava uma
família problemática nas vezes em que visitava seu pai. A mãe da
menina, Ana Carolina Oliveira, não saberia disso.
Procurado para comentar o assunto, o promotor Francisco
Cembranelli não quis entrar em detalhes. Informou apenas que tinha
informações sobre problemas familiares envolvendo os réus e que
eles poderiam ser utilizados no júri.
Além
das discussões e cenas de violência entre o pai e a madrasta da
menina morta, que teriam sido presenciadas por testemunhas e
vizinhos, o mais recente escândalo envolve adultério, traição,
teste de paternidade e exame de DNA. Tudo está documentado.
Trata-se de uma ação conjunta movida pelo pai de Alexandre, Antonio
Nardoni e sua concunhada.
Ambos pediam à Justiça o reconhecimento do filho da
mulher como sendo fruto de um caso que ela teve com Antonio. A
decisão que reconheceu a paternidade saiu em 18 de setembro de
2009. A mulher é casada com o irmão da mulher de Antonio Nardoni. O
relacionamento entre ela e o chefe da família Nardoni teria sido
revelado dias antes da morte de Isabella, que ocorreu em 29 de
março de 2008.
Isabella morreu após ter sido jogada da janela do sexto
andar do edifício onde o casal Nardoni morava.
Indagado sobre o que irá discutir com os jurados, Podval
disse que vai mostrar que o trabalho da investigação teve falhas.
“Tem uma série de pontos controversos, equivocados. Muitos
pontos que estão ali não podem ser afirmados”, disse o
advogado.